CONTEÚDO E MÍDIA

Símbolos culturais alavancam ou bloqueiam a estratégia

 

Por Maria Candida Baumer de Azevedo, novembro de 2018

Os símbolos formam a primeira camada do modelo de Geert Hofstede, antropólogo holandês e referência mundial em cultura. Sendo camada a mais externa e, por isso, a mais fácil de ser identificada, tende a ser vista como a camada mais concreta por ter vários elementos de fácil visualização.

Entenda mais analisando os símbolos da cultura organizacional em profundidade.

Vestuário e acessórios

Vá a uma empresa desconhecida e, sentado na recepção, observe o vai e vem de quem trabalha lá. O jeito de vestir, a escolha do sapato, a presença ou ausência de gravata, uniforme, bermuda, fantasias, chapéus, chinelos, tudo isso diz muito sem palavras.

Roupas de estilo despojado indicam flexibilidade, casualidade, descontração, liberdade e até leveza. Estilos mais sérios, clássicos, tradicionais sugerem posturas e mentalidades mais conservadoras. Times com vestuário bem cortado, caro, impecável e arrojado, ‘capa de revista’, transbordam sucesso, confiança e autoestima.

O crachá tem o que escrito? Apenas o nome, o apelido de guerra, o cargo em letras garrafais? Tem foto? A cor de fundo é a mesma ou existem categorias diferentes? A diferença é por acesso a ‘áreas nobres’, acesso a espaços restritos que exigem treinamento de segurança prévio ou pela necessidade de dizer ‘quem manda’? Como é a cordinha de colocar no pescoço, igual pra todo mundo, com dizeres específicos, com tramas e cores de algum tipo de premiação? Tem pin indicando domínio de um conhecimento, um reconhecimento, premiação ou status diferenciado? Cada resposta aqui vai dando indícios do que é importante para a empresa.

Ícones

O elogio de um cliente impresso no banner, o busto do fundador no pátio da empresa, a fotografia de um momento marcante, a maquete da primeira sede, o esqueleto do primeiro veículo, cada um é um ícone, sem significado externo, mas com grande relevância para quem a empresa é ou quer ser.

A mesma coisa acontece com objetos que carregam um significado particular, especial. Andando pela empresa, o que está orgulhosamente exposto em cima das mesas, prateleiras, nas vitrines e totens? O que torna aquilo importante? O capacete de segurança que, numa empresa é ‘parte do corpo’, na outra foi comprado para atender à uma auditoria e agora junta pó no armário sem uso. Um mesmo objeto pode indicar traços culturais diferentes. O troféu por tempo de casa mostra que lealdade é importante. Já a taça ganha no campeonato entre áreas sugere que a competição pode ser benvinda.

Linguagem

Como as pessoas se cumprimentam? Há sorriso, abraço, beijo, aperto de mão, aceno com a cabeça, olhar pro chão? Isso é geral ou varia conforme o interlocutor? Cada detalhe tem seu significado. Maior proximidade pode demonstrar camaradagem, já distanciamento, pode indicar respeito, receio ou até desconforto.

As palavras, jargões e gírias são os mesmos de uso quotidianos ou são tão particulares, que que ‘só entende quem é da casa’? As siglas são de domínio público ou cada recém-chegado precisa de um dicionário ou até tradutor para acompanhar o que se fala em uma reunião? Quanto mais específica é a comunicação, maior o tempo necessário para um novato se encontrar e se sentir parte. Isso dá indícios do nível de abertura ao mundo externo, a facilidade de adaptação.

Carreiras

Existem carreiras, áreas, formação ou profissões mais valorizadas ou o tratamento distinto nada tem a ver com isso? Havendo reverência, quais são as mais importantes e porquê? O destaque do comercial indica atenção ao cliente. A maior valorização do engenheiro mostra cuidado com os processos produtivos. O médico, rei no hospital, na empresa fica restrito ao cumprimento da legislação quando atua como médico do trabalho, normalmente na salinha que sobrou.

Histórias, mitos e lendas

Quais são as histórias compartilhadas com quem chega na empresa? Quais as lendas contadas nos encontros formais e informais? Quais são os ensinamentos por trás dos mitos e das parábolas contadas sempre que determinada situação acontece? Existem histórias sobre pessoas chave? O que é contado em eventos que legitimam o jeito de ser? Quais são as lendas transmitidas na boca a boca ao longo dos anos? Cada causo tem uma lição a ser reforçada como fundamental naquela cultura.

Layout do escritório

Cadeiras e mesas sem diferenciação indicam igualdade, mas podem haver cadeiras e mesas diferentes por simples compra em momentos distintos onde uma linha já tinha sido descontinuada. Pode haver cadeiras mais sofisticadas somente em espaços onde se recebe clientes.  Comum nas empresas mais formais, a diferenciação existe conforme o nível hierárquico. Já tivemos como cliente empresa que, pensando no bem-estar e na ergonomia, tinha um ‘cardápio’ com 4 modelos de cadeira. Cada admitido sentava nas 4 e escolhia aquela onde se sentia mais confortável.

Como se organizam os espaços e as pessoas que ali trabalham? Salas fechadas apenas para quem lida com informação sigilosa indica zelo com a confidencialidade. Salas individuais por cargo, reforçam a valorização da hierarquia. Espaços abertos sem qualquer ícone de diferenciação, sugerem igualdade.

Estrutura física

Qual o critério para ter vaga de garagem? É ordem de contratação, posição hierárquica ou a vaga é só para quem está no comercial para evitar perder tempo procurando vaga ao invés de atender o cliente? Em outras empresas, estaciona mais longe quem chega primeiro como forma de facilitar para quem chega em cima da hora. No primeiro caso se destaca a relevância do cliente, no outro gentileza, colaboração e coleguismo.

Existe escada ou elevador exclusivo, banheiro privativo, copa especial? Isso tem a ver com o cargo ou outro critério?

Onde acontecem as refeições? Existe restaurante diferente ou todos comem juntos? Cada um senta onde quiser, mas no fim, gerente só come com gerente e diretor com diretor? Esse é o típico caso em que a hierarquia impera; mesmo depois da empresa unificar os refeitórios querendo romper com a diferenciação. Isso só mostra a importância de prosseguir ajustando as demais camadas, em um processo de mudança cultural. Parar nos símbolos é fazer, apenas, a mudança cosmética, sem profundidade e com baixa reverberação.

Aprofunde-se nas demais camadas, entenda mais sobre heróis, rituais, práticas e valores. Símbolos não garantem bons princípios, mas dão indícios. Sua presença isolada nem faz cócegas. É apenas uma característica. Quando o significado por trás dele é encontrado repetidamente em outros elementos culturais, então podemos dizer que se trata de um traço cultural. A leitura é sutil. Os traços surgem nos detalhes e se consolidam à medida que se repetem em diferentes aspectos e elementos das camadas.

Quer saber mais?

Assista ao nosso vídeo sobre Diagnóstico de Cultura https://www.youtube.com/watch?time_continue=3&v=aBtU5EZ3fvY

Quer aprofundar sua reflexão?

Pensando na sua empresa, monte uma lista com todos os clusters de símbolos detalhados aqui. Passeie pelos espaços e unidades da sua empresa identificando cada um deles. Investigue a origem de cada símbolo (por que e quando isso passou a ser usado, adotado, comunicado?) e entreviste pessoas que estavam na época para entender o significa real daquilo.

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