CONTEÚDO E MÍDIA

Heróis da cultura organizacional alavancam ou bloqueiam a estratégia

 

Por Maria Candida Baumer de Azevedo, novembro de 2018

Os heróis formam a segunda camada do modelo de Geert Hofstede, antropólogo holandês e referência mundial em cultura. Eles são pessoas, vivas ou não, reais ou imaginárias que, possuindo características altamente valorizadas, servem como modelo de comportamento. Encarados como referência são fundamentais ao sucesso da empresa e fonte de inspiração à maioria dos profissionais.

Entenda mais analisando os heróis da cultura organizacional em profundidade.

Como sei quem é herói?

Para saber quem são os heróis da cultura organizacional, comece por você. Quem dentro da empresa te inspira? Quem fala e você faz questão de ouvir? Com quem você se aconselha independentemente da relação hierárquica ou uma obrigação funcional? Em seguida pense no contrário. Quem você despreza, evita ou ouve sem considerar de verdade?

Agora considere os demais profissionais da empresa: que respostas dariam a essas mesmas perguntas? Conforme os nomes vão surgindo e se repetindo, ai estão os heróis e os anti-heróis.

A razão pela qual alguém é herói evidencia os comportamentos valorizados e admirados. Isso deixa claro qual viés as pessoas querem ter quando moldam ou adequam suas atitudes.

É preciso haver unanimidade sobre quem são os heróis da cultura organizacional?

O herói pode ser unânime, idolatrado ou apenas admirado pela maioria. Do macro ao micro, também existem heróis ‘locais’. Aqui a amplitude de relacionamento, a interação e a visibilidade são menores. Sua representatividade se reduz à uma população específica, onde exerce poder de articulação, mobilização e influência.

No mundo empresarial são vários os casos de heróis da cultura organizacional que já se foram. Comandante Rolim, da TAM, Sam Walton do Walmart, Dave Goldberg do Survey Monkey. Pensou no Steve Jobs? Mais a frente falaremos sobre ele. É um caso que rende uma boa discussão.

Todo presidente é herói?

Um presidente herói é mais o anseio de ter um capitão inspirador, do que uma realidade na maioria das empresas. Além do presidente herói, também existe anti-heróis (que, espero, dure pouco), além de casos sem posição de liderança. Em um cliente do segmento agro encontrei o Takaoka, referência por sua capacidade inovadora e brilhantismo no campo das pesquisas, sem nunca ter gerido uma única pessoa.

É preciso ter heróis?

Em tempos favoráveis o herói molda e reforça a cultura sendo exemplo no dia a dia. Durante crises e conflitos é que sua principal função aparece. Busca-se nele energia, respaldo, segurança e respostas.

Já diziam os antigos, ‘quem tem um, não tem nenhum’. O herói pode deixar a empresa; se afastar por questões de saúde (como aconteceu com o presidente da Azul Linhas Aéreas, Pedro Janot, que se afastou pela perda dos movimentos após a queda de um cavalo) ou sair de circulação por problemas pessoais. A perda de heróis, do dia pra noite, aconteceu com a prisão de vários presidentes na sua Operação Lava Jato. Havendo um único herói, na ausência, a organização perde a referência. Quem eu sigo? Quem me orienta? O profissional autônomo e auto motivado rapidamente se apruma e se orienta. Os mais passivos, dependentes, carentes de direção, ficam à deriva a espera de orientação.

Como criar ou extinguir um herói?

Como alguém desconhecido no Brasil em uma sexta feira de manhã se torna bastante conhecido da população letrada até segunda de manhã? Por ordem cronológica, saindo no jornal local, em seguida no Jornal Nacional, depois no Globo Repórter, sendo capa do Estado de SP, Folha, Valor Econômico, capa da Veja, entrevistado nas páginas amarelas, convidado do Fantástico, constância nas redes sociais, aparição nos telejornais dos canais pagos. Levando isso para dentro da organização, quais são os canais de alta audiência interna? É neles, ao vivo, impresso, virtual e mobile, que esse projeto de herói deve ter a imagem e, principalmente, o conteúdo e atitudes ressaltados.

O caminho contrário acontece quando há a intenção de reduzir a relevância de um herói. Veja o exemplo de uma empresa de meios de pagamento que era focada em aumentar sua eficácia operacional. Considerando as necessidades do mercado, ela passou a focar na satisfação do cliente final. Com isso os heróis da velha estratégia foram perdendo seu ‘tempo de televisão’, dando espaço para quem já começa a ter atitudes de priorização do cliente.

Herói x super-herói, é a mesma coisa?

Conversando recentemente com um grupo de executivos, percebi que a camada dos heróis suscita essa dúvida. O profissional super-herói é velocista o que chega, faz e acontece, transforma, resolve, reduz, reorganiza. Sabemos que ele é super-herói quando, ao sair de cena, as coisas voltam ao seu status anterior, mostrando que ele não mudou a cultura, apenas as pessoas o estavam obedecendo. O super-herói demanda da equipe um esforço acima da média, mexendo em todas as bases ao mesmo tempo. Quando coloca em prática o que planejou, procura o próximo lugar onde vai poder voar. Esse ciclo, tão curto, pouco tempo dá para digestão e assimilação real de todos os conceitos e processos adotados. Os ajustes só foram mentalmente absorvidos sem terem sido introjetados no coração das pessoas. A mudança da cultura teria acontecido de verdade se após a saída dele, o jeito de ser e fazer tivesse se mantido o mesmo.

É aí que entra o maratonista, o verdadeiro herói. Eles também vêm para transformar, evoluir e entregar resultado, porém com um olhar de longo prazo. Os ganhos e ajustes precisam ser duradouros, sustentáveis. Os passos são um pouco mais lentos, porém mais consistentes. A mudança acontece passo a passo. Isso garante que uma vez feito o movimento, não se volta atrás pois todos estão verdadeiramente engajados e prontos para seguir. Aqui o ‘goela abaixo’ é exceção.

O que isso tem a ver com o Steve Jobs?

Aprofunde-se nas demais camadas, entenda mais sobre símbolos, rituais, práticas e valores. O herói sozinho não configura uma cultura; ele personifica certas atitudes. Quando um comportamento é encontrado repetidas vezes em outros elementos culturais, aí sim se trata de uma característica dela.

Quer saber mais?

Dê uma olhada nesse TED sobre o poder dos introvertidos https://www.youtube.com/watch?v=c0KYU2j0TM4. O que isso tem a ver com a formação do ‘herói-maratonista’, as fontes de inspiração nas empresas?

Quer aprofundar sua reflexão?

Pesquise sobre a história do Steve Jobs. Se possível, leia a biografia autorizada dele, escrita por Walter Isaacson e chegue as suas conclusões sobre ele ter sido um herói, super-herói velocista ou um herói maratonista. Compartilhe sua opinião comigo, mariacandida@peopleandresults.com.br

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