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Escolher uma empresa ou ser escolhido pelo mercado?

 

Por Maria Candida Baumer de Azevedo– primeira publicação fevereiro de 2021, revisto e atualizado em agosto, 2018

A resposta parece óbvia: escolher, e de preferência escolher a empresa onde meus valores são respeitados e vivenciados. Na prática, ainda existe uma quantidade crescente de profissionais que muda de empresa, com salário superior e vaga de nome pomposo e depois de 3 meses está infeliz por uma divergência ou choque de valores.

Sucesso Objetivo x Sucesso Subjetivo

No passado a seleção de novos profissionais priorizava a identificação de competências técnicas. Com o passar do tempo, percebeu-se que a demissão posterior, nada tinha a ver com incapacidade técnica, mas sim com a ausência de comportamentos necessários para entregar a estratégia. Nesse momento ganharam espaço as dinâmicas de grupo, entrevistas por competências, jogos, a entrevista de caso e testes de personalidade. A melhoria na aderência das contratações foi visível, afinal mudar um comportamento é mais difícil do que aprender a utilizar um novo software, uma metodologia específica de gestão de projeto ou passar a fazer um orçamento usando a lógica base zero.

A medida que um ‘problema’ se resolve, os que passavam desapercebidos ganham relevância. Conseguindo contratar pessoas com comportamentos e competências adequadas, o desafio passa a ser como identificar no processo seletivo quem também está alinhado à cultura, ao jeito de ser da empresa. Surgem então ferramentas de mapeamento cultural, com efetividade ainda questionada por misturarem perfil, motivação, clima e cultura sob uma mesma chancela gerando mais confusão do que precisão de diagnóstico.

E as pessoas? A história não foge muito da anterior. Ao aceitar uma vaga, as pessoas valorizam se o nome do cargo demonstra mais poder que o atual, se o pacote de remuneração é maior, e se o nome da empresa é bem reconhecido no seu hall de amigos e nas redes sociais. Esses são os símbolos do chamado sucesso objetivo. Se isso bastasse, profissionais recém-contratados estariam sempre felizes e casos de pedidos de demissão em poucos meses para aceitar propostas com remuneração ou status até menores seriam raros. Salário, status e poder têm efeito positivo no nível de satisfação do indivíduo apenas nos primeiros meses. Passada a fase inicial, a insatisfação surge da falta do que é considerado sucesso subjetivo. Ele pode estar no ambiente de trabalho, na relação de confiança ou desconfiança com gestor, pares, clientes ou fornecedores, na forma de interagir com a comunidade do entorno, nas ações sustentáveis ou pela falta delas e, principalmente, na partilha ou divergência de valores. Essa lista e seu nível de prioridade varia de pessoa para pessoa, o que explica como alguém ama uma empresa e outro chegue a detestar.

Valores

Valores são os princípios inegociáveis, aquilo para o qual não há vista grossa, do que não se abre mão mesmo recebendo um pacote de remuneração incrível. Valor não tem preço e nem está à venda.

Sendo o alinhamento entre os valores pessoais e da empresa vital para a felicidade no trabalho, como conduzir na prática?

Primeiro, é preciso reconhecer quais são os seus valores. Pergunte-se, o que te faz, ou fez, feliz nessa ou naquela empresa? Por quê? Você pode viver sem isso, ou trata-se de um elemento tão vital quanto o ar que se respira? E o que te frustra? Por quê? Você pode conviver e tolerar essas práticas ou isso te é inadmissível? Toda vez que se trata de algo sem o qual ou com o qual você não pode continuar trabalhando em determinado lugar, isso é valor para você.

Conhecidos os seus valores, começa seu trabalho de detetive e pesquisador. É a hora de saber quais são os valores da empresa em questão. Pode ser, apesar de raro, que o que a empresa declara no seu site, nas paredes e portas dos elevadores seja praticado no dia a dia. Para confirmar ou descobrir os valores de fato é preciso conversar com quem trabalha lá, trabalhou, é cliente, fornecedor e também com parceiros. A conversa precisa ser pelas bordas, como em um namoro. Nada de ir direto perguntando ‘o que tá na parede é verdade?’. Poucas são as pessoas que entendem o que são valores vivenciados e já refletiram se o que está na parede é a realidade do quotidiano. Perguntas do tipo ‘o que faz alguém ser promovido aqui? E mandado embora?’ podem trazer valores relativos à honestidade, ética, politicagem, meritocracia, protecionismo, apadrinhamento, comando e controle. Perguntas como ‘qual sua relação com seu gestor direto? E com seus pares?’ podem falar sobre trabalho em equipe, cooperação. E ainda ‘como você fica sabendo do que acontece na empresa?’ falam de comunicação, acesso à informação, tomada de decisão.

Pense nos seus valores, liste as perguntas necessárias para saber se a empresa comunga deles ou diverge. Então você terá a resposta se aquela é uma empresa da qual quer fazer parte ou não. Escolha, seja protagonista da sua carreira. O sucesso objetivo te traz felicidade amanhã, o subjetivo pelos próximos anos.