CONTEÚDO E MÍDIA

Como ter duas carreiras

 

Ter uma segunda carreira começa a fazer parte do dia a dia de muitos profissionais – seja como um projeto para a aposentadoria, seja para ter mais satisfação profissional ou segurança no emprego. Veja que tipo de atividade combina mais com suas aspirações. Por Caroline Marino.

Quando encerra seu expediente diário como diretor de tecnologia do site de comércio eletrônico Netshoes, de São Paulo, por volta das 19 horas, o administrador de empresas Rodrigo Nasser, de 33 anos, faz um lanche rápido, pega o carro e em poucos minutos está na escola de mergulho da qual é sócio, na zona sul da cidade. Inicia, então, sua segunda atividade profissional  diária.

Nas três ou quatro horas seguintes, Rodrigo prepara e ministra cursos e resolve questões administrativas da escola. A jornada dupla ocupa com frequência os fins de semana, quando Rodrigo desce ao litoral para dar aulas práticas de mergulho.

“O ócio me incomoda”, diz Rodrigo. Na época em que começava sua carreira, ele vislumbrava três alternativas: trabalhar com tecnologia, mergulhar ou dar aulas.

Decidiu ficar com o mais garantido e, com  o tempo, tornou-se responsável pela estratégia tecnológica de um dos mais bem sucedidos endereços de comércio eletrônico do país, onde lidera uma equipe de 135 pessoas.

Em 2012, a vontade de ensinar e explorar o fundo do mar bateu forte e Rodrigo foi atrás das coisas que lhe Rodrigo Nasser de São Paulodavam prazer. Resolveu investir em um negócio e ingressou na sociedade da escola.

“São pessoas que desejam trabalhar com comércio sem ter de abrir um negócio”, diz Leandro Soares, diretor do Mercado Livre. Seja por prazer, seja por dinheiro, muitos profissionais não se satisfazem com apenas um trabalho hoje em dia.

Segundo a consultora Maria Candida Baumer Azevedo, sócia da People & Results, especializada em carreira e cultura empresarial, de São Paulo, é crescente entre profissionais o interesse de manter duas carreiras paralelas.

Maria Candida acaba de concluir  a primeira etapa de um estudo sobre o tema. Seu recorte encontrar pessoas que desemprenham atividades diferentes, simultâneas, que demandam desenvolvimento profissional e exigem responsabilidade.

Seu objetivo é realizar  uma ampla pesquisa sobre o assunto no Brasil ainda neste ano. “As pessoas querem mais  de uma fonte de relacionamento, de aprendizado e desafio”, diz Maria Candida.

O movimento é reflexo de mudanças sociais, como o aumento da expectativa de vida, que obriga as pessoas a planejar o trabalho até uma idade mais avançada, e as possibilidade que a tecnologia proporciona, que permitem administrar um negocio remotamente.

De acordo com o filósofo australiano Roman Krznaric, um dos fundadores da escola inglesa School of Life, que concedeu entrevista nesse mês a VOCÊ S/A, as pessoas já não podem nem querem planejar a carreira tendo como alvo um único trabalho perfeito.

Ao contrário, deveriam pensar em maneiras de dar vazão a suas diferentes vocações. “As pessoas têm  muitos traços de personalidade, uma identidade formada por diversos conhecimentos e interesses”, afirma Roman.

Na Produtive, consultoria de planejamento e transição de carreira de Porto Alegre. Há uma área destinada exclusivamente a trabalhar as possibilidade alternativas de renda para os cliente s, em geral executivos.

Nesse serviço, são abordados os caminhos opcionais de carreira, as motivações do profissional e como está o mercado.

De 2.400 pessoas que já participaram desse programa, 40% decidiram iniciar uma carreira paralela. De acordo com Rafael Souto, presidente da consultoria, a maior  preocupação desses executivos é não apostar em carreira em um único caminho. “Eles querem ampliar essa possibilidade de trabalho e de renda”, diz.

A pesquisa de Maria Candida identificou alguns motivos para esse movimento, como a vontade de mudar de carreira, um plano para a aposentadoria, insatisfação no trabalho atual ou uma forma de ajudar alguém, como um filho ou um cônjuge.

A maioria dos executivos busca a proteção contra um eventual desemprego, mas muita gente opta por uma segunda carreira por já ter chegado ao topo da primeira e precisar de novos estímulos. “tocar mais de uma atividade profissional amplia os desafios e as competências necessárias para o mercado de trabalho”, diz Maria Candida.

O QUE VOCÊ GANHA

O movimento é comum tanto para homens quanto para mulheres. E de todas as idades. Porém, sejam quais forem os motivos da busca, a recomendação dos especialistas é que a atividade complementar seja algo que proporcione satisfação pessoal. Apostar em uma carreira que você odeia pode tornar o trabalho muito mais difícil.

Vale reforçar que carreira paralela é diferente de um hobby ou um segundo emprego.

É fácil entender a diferença. Se você joga basquete todo fim de semana com amigos isso é um hobby, mas, se você é contratado por um time para ser jogador de basquete de uma forma contínua e mantém seu antigo trabalho, isso é carreira paralela.

O mesmo critério se aplica ao segundo emprego, que é quando você faz a mesma atividade para patrões diferentes, como médicos que atuam em mais de um hospital ou professores que lecionam em mais de uma faculdade.

“Queria diversificar e ter mais segurança financeira”, diz Fabiana. Ela negociou com a empresa um horário alternativo, das 7 às 16 horas, para conseguir começar a atender às 18 horas no consultório às terças-feiras. “Nesse dia só volto pra casa às 22 horas”, afirma Fabiana, que diz só precisar das duas atividades para se sentir completa.

Há inúmeros benefícios em ter mais de uma carreira. Em primeiro lugar está a proteção contra desemprego e variações do mercado. Quanto mais alto o cargo, maior a dificuldade de conseguir uma recolocação em caso de demissão.

Segundo a coach Eliana Dutra, do Rio de Janeiro, a maioria dos executivos que ela atende tem um plano B como forma de se manter no mercado e se sentir mais segura. “Isso é saber olhara carreira a longo prazo”, afirma Eliana.

Outro ganho é a ousadia. Saber que existe uma alternativa se a primeira carreira der errado faz os profissionais ousarem mais, o que contribui para a primeira atividade. “O segredo é saber alinhar uma atividade a outra como forma de crescimento profissional”, diz Rodrigo Nasser, diretor de tecnologia da Netshoes e professor de mergulho.

Um efeito positivo de carreira paralela é o networking reforçado. Ao trabalharem duas frentes,  os contatos profissionais se multiplicam, as possibilidades de negócio crescem e o aprendizado e a experiência aumentam. “As pessoas com carreiras paralelas passam a ter mais organização e mais facilidade de olhar para o outro e identificar oportunidades dentro do projeto”, diz Maria Candida, da People & Results.

PLANEJAMENTO E PERFIL

Ter duas atividades requer motivação e planejamento. Por isso, antes de pensar em uma carreira paralela, a orientação dos especialistas é estudar quais seriam as alternativas mais adequadas a você e como está o mercado. Como na maioria das vezes os jogos são à noite ou nos fins de semana, fica mais fácil para Paulo organizar a agenda a fim de não prejudicar sua atuação na Volvo.

E, quando há campeonatos mais longos, ele usa suas férias ou negocia um esquema de home office. No início de julho, ele ficou uma semana em Cuba para apitar a fase intercontinental da Liga Mundial de Vôlei.

“Negociei com a empresa e trabalhei remotamente”, diz.

Analisar seu perfil profissional e sua rotina atual de trabalho é outro ponto importante para quem deseja ter uma carreira paralela.

Se você já tem uma rotina intensa na carreira atual, costuma trabalhar nos fins de semana e viajar a trabalho, passando pouco tempo com a família, pense bem em antes de se lançar em uma nova atividade.

Tão importante quanto saber conciliar as duas carreiras é reconhecer a hora de interromper algumas delas. “Já não tinha mais fins de semana”, afirma Aline Lazzaris Freitag, 31 anos, gestora da seção de alimentação e nutrição da Weg, fabricante de motores elétricos, de Jaraguá do Sul, em Santa Catarina, que começou a deixar de lado o seu plano B.

A decisão de permitir que a sócia tocasse o negócio (uma fábrica de doces e bombons para festa de casamento e eventos) veio pela falta de tempo de Aline para se dedicar aos estudos. “Tive de fazer uma escolha, apesar de adorar o meu trabalho como empreendedora”, afirma.

A segunda carreira demanda compromisso, investimento e disposição. “Não há como justificar cansaço, atrasos ou falta de preparo porque estava trabalhando muito para a outra carreira”, afirma Camila Veiga, coordenadora de carreiras e desenvolvimento do Ibmec, de Belo Horizonte. Segundo ela, é importante saber separar as duas atividades.

Pedro acorda às 8 horas, checa  todos os e-mails e organiza  a agenda do dia. Geralmente, realiza os encontros com possíveis clientes na parte da manhã à tarde, organiza as campanhas e parceiras comerciais para o site do fim do dia e à noite entra no ateliê, em meio a pinceis e tintas. “São como vários pratinhos que você tem  que equilibrar ao longo do dia”, diz Pedro.

Ele reconhece que é de arte que quer viver, mas para chegar lá é necessário um esforço a mais. “A agenda atribulada é uma forma de ganhar mais dinheiro e no futuro poder investir em arte, que é minha paixão.”

PARA DAR CERTO

“ Quando se busca uma outra atividade, a primeira deve ser consolidada”, diz o psicólogo Tadeu Barbosa Nogueira Júnior, de 47 anos, que, além de gerenciar duas clínicas, é vendedor de antiguidades no Mercado Livre.

A idéia de Tadeu ao buscar essa alternativa foi, além de trabalhar com algo mais leve, já que ele lida com o sofrimento humano diariamente em sua clínica, uma forma de manter a sua coleção de bonecas, canetas e moedas – outra paixão.

Ele tem em seu acervo pessoal cerca de 150 bonecas, 120 canetas e dezenas de moedas. “Vendo hoje cerca de 1.000 peças por mês”, afirma. Tadeu diz não se imaginar sem nenhuma de suas atividades e lembra que o começo foi difícil. “tinha dificuldade de conciliá-las.”

Depois de muito planejamento e uma dose extra de disciplina, ele mantem as duas carreiras consolidadas e sem problemas. Seu segredo é dividir o tempo entre elas – de 35 a 40 horas na clinica e 25 horas para o comércio a cada semana. E contar com parceiros. Tadeu tem três funcionários para cuidar da parte operacional da loja virtual. “Saber delegar é o segredo”, afirma.
Certamente, você terá menos horas livres e mais responsabilidades; é um tremendo desafio, mas, se atender aos objetivos, vale a pena.

Revista Você S/A – Edição 182

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