CONTEÚDO E MÍDIA

Cultura Organizacional, os heróis em profundidade

 

Por Maria Candida Baumer de Azevedo, outubro de 2018

Os heróis formam a segunda camada do modelo de Geert Hofstede, antropólogo holandês e referência mundial em cultura.  Eles são pessoas, vivas ou não, reais ou imaginárias, que possuem características altamente valorizadas na cultura e servem como modelo de comportamento. São encarados como referência, fundamentais ao sucesso da empresa, fonte de inspiração para a grande maioria dos profissionais.

Como sei quem é herói?

Comece por você. Quem dentro da empresa te inspira? Quem fala e você faz questão de escutar? A quem você recorre para buscar direcionamento independentemente de haver uma relação hierárquica, uma obrigação funcional? Pense em seguida no contrário. Quem você despreza, evita ou ouve sem escutar?

Agora considere os outros profissionais da empresa. Qual é a resposta deles para essas perguntas? A medida que os nomes vão surgindo e se repetindo, por recorrência se encontra os heróis e os anti-heróis.

Os símbolos trazem consigo significados, nos heróis é preciso identificar os motivos. A razão pela qual alguém é herói evidencia os comportamentos valorizados e admirados. Isso deixa claro qual viés as pessoas tendem a ter quando buscam moldar ou adequar suas atitudes.

O herói pode ser unânime, ser idolatrado ou apenas admirado pela maioria. Indo do macro para o micro, existem também os heróis ‘locais’. São casos onde a amplitude de relacionamento, interação e visibilidade é menor, reduzindo sua representatividade à uma geografia ou população específica. Esses heróis também têm grande importância pelo seu poder de articulação, mobilização e influência, mesmo com um público restrito.

No mundo empresarial são vários os casos de heróis que já se foram. Comandante Rolim, da TAM, Sam Walton do Walmart, Dave Goldberg. Pensou no Steve Jobs? Mais a frente falaremos sobre ele. É um caso que rende uma boa discussão.

Todo presidente é herói?

O presidente ser herói é mais um desejo de ter no seu capitão uma referência inspiradora do que a realidade de todas as empresas. Tem presidente que é herói e alguns, que duram pouco (espero!), anti-heróis. Além disso, há muitos heróis sem posição de liderança. Em um cliente do segmento agro, encontrei o Takaoka, herói pela sua capacidade inovadora e brilhantismo no campo das pesquisas, sem nunca ter gerido uma única pessoa

É preciso ter heróis?

Na bonança, ventos favoráveis, o herói é parte da cultura, molda e reforça a cultura sendo exemplo no dia a dia. A sua principal função aparece quando surgem conflitos, divergências e, principalmente, na crise. Na instabilidade surge insegurança, incerteza, temor, desconforto, dúvida. Busca-se o herói nesses momentos em busca de energia, resposta, certeza, respaldo, segurança, confiança, acalento.

Já diziam os antigos, ‘quem tem um, não tem nenhum’. O herói pode deixar a empresa, se afastar para cuidar da saúde (como aconteceu com o presidente da Azul Linhas Aéreas, Pedro Janot, que perdeu os movimentos após a queda de um cavalo) ou ter um problema ético que o tire de circulação por um tempo. A indisponibilidade de heróis, do dia pra noite, aconteceu com a prisão de vários presidentes na Operação Lava Jato. Havendo um único herói, na ausência, a organização perde a referência. Quem eu sigo? Quem me orienta? O profissional autônomo e auto motivado rapidamente se apruma e se orienta. Os mais passivos, dependentes, carentes de direção, ficam à deriva a espera de orientação.

Como criar ou extinguir um herói?

Como alguém desconhecido no Brasil em uma sexta feira de manhã se torna bastante conhecido da população letrada até segunda de manhã? Por ordem cronológica, saindo no jornal local, em seguida no Jornal Nacional, depois no Globo Repórter, sendo capa do Estado de SP, Folha, Valor Econômico, capa da Veja, entrevistado nas páginas amarelas, convidado do Fantástico, constância nas redes sociais, aparição nos telejornais dos canais pagos. Levando isso para dentro da organização, quais são os canais de alta audiência interna? É neles, ao vivo, impresso, virtual e mobile, que esse projeto de herói deve ter a imagem e, principalmente, o conteúdo e atitudes ressaltados.

O caminho contrário acontece quando há a intenção de reduzir a relevância de um herói. Veja o exemplo de uma empresa de meios de pagamento que era focada em aumentar sua eficácia operacional. Considerando as necessidades do mercado, ela passou a focar na satisfação do cliente final. Com isso os heróis da velha estratégia foram perdendo seu ‘tempo de televisão’, dando espaço para quem já começa a ter atitudes de priorização do cliente.

Herói x super-herói, é a mesma coisa?

Conversando com um grupo de executivos recentemente, percebi que a camada dos heróis suscita essa dúvida. O profissional super-herói é o que chega, faz e acontece, transforma, resolve, reduz, reorganiza. Sabemos que ele é super-herói quando, ao sair de cena, as coisas voltam para o seu status anterior. Isso mostra que ele não mudou a cultura, apenas que as pessoas o estavam obedecendo. O super-herói demanda da equipe um esforço acima da média, mexe em todas as bases ao mesmo tempo. Quando coloca em prática o que planejou, procura o próximo lugar onde vai poder voar. Esse ciclo é tão curto que pouco há tempo de digestão e assimilação real de todos os conceitos e processos adotados. A mudança só foi mentalmente absorvida, sem ser introjetada no coração das pessoas. A mudança da cultura teria acontecido de verdade se após a saída dele, o jeito de ser e fazer tivesse se mantido o mesmo.

É aí que entram os maratonistas. Eles também vêm para transformar, evoluir e entregar resultado. Mas o olhar deles é de longo prazo. Os ganhos e ajustes precisam ser duradouros, sustentáveis. Os passos são um pouco mais lentos, mas mais consistentes. A mudança se dá um passo de cada vez. Isso garante que uma vez dado o passo, não se volta atrás pois todos estavam de fato engajados e prontos para seguir. O ‘goela abaixo’ é exceção aqui.

O que isso tem a ver com o Steve Jobs?

Aprofunde-se nas demais camadas, entenda mais sobre símbolos, rituais, práticas e valores. O herói sozinho não configura uma cultura. Ele personifica certas atitudes. Quando cada atitude é encontrada repetidamente em outros elementos culturais, aí sim se trata de uma característica daquela cultura.

Quer saber mais?

Dê uma olhada nesse TED sobre o poder dos introvertidos https://www.youtube.com/watch?v=c0KYU2j0TM4. O que isso tem a ver com a formação de heróis, as fontes de inspiração nas empresas?

Quer aprofundar sua reflexão?

Pesquisa sobre a história do Steve Jobs. Se possível, leia a biografia autorizada dele, escrita Walter Isaacson e chegue as suas conclusões sobre ele ter sido um herói, super-herói ou maratonista. Compartilhe sua opinião comigo, mariacandida@peopleandresults.com.br